Entre o passado nuclear e as terras raras: cidade do Sul de Minas vive novo ciclo mineral 40 anos depois

  • 30/05/2026
(Foto: Reprodução)
Cidade mineira que abriga rejeitos radioativos de mineração terá mina de terras raras A exploração de terras raras ao lado de um passivo nuclear deixa o município de Caldas, no Sul de Minas Gerais, dividido entre a promessa de um futuro de desenvolvimento e o temor de repetir os impactos do passado. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram Está previsto para entrar em operação no município em 2028 um projeto da empresa australiana Meteoric Resources para explorar uma área de 425 hectares. Batizado de “Projeto Caldeira”, o empreendimento deve processar anualmente 5 milhões de toneladas e gerar 15 mil toneladas anuais de carbonato de terras raras. 🔎 Terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos estratégicos fundamentais em tecnologias como carros elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos de defesa. O empreendimento deve se tornar um dos mais importantes na corrida por minerais críticos, com capacidade para abastecer 8% da demanda mundial por terras raras. Porém, está nascendo em um território sensível. De um lado, fica a Área de Proteção Ambiental (APA) Pedra Branca e, do outro, a antiga mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (UDC/INB). Inaugurada na década de 1980, a INB produziu 1,5 mil toneladas de concentrado de urânio que abasteceram a usina de Angra I e ajudaram a alavancar o programa nuclear brasileiro. Mina de terras raras será montada ao lado de antiga mina de urânio, em Caldas (MG) Arte/g1 A unidade está desativada desde meados da década de 1990 e em processo de descomissionamento, mas abriga 12 mil toneladas de rejeitos radioativos que vieram da extração de terras raras de areia monazítica da antiga Usina Santo Amaro (USAM), também desativada. O material está distribuído em tambores — armazenados em galpões e no subsolo — e em uma barragem. É uma herança indigesta deixada pela mineração que permanece na memória dos moradores de Caldas e alimenta a desconfiança de que novos empreendimentos possam repetir um ciclo de desenvolvimento temporário seguido de impactos permanentes. “Eu espero só que as autoridades que tenham competência para isso vejam certinho para não prejudicar famílias que vivem da agricultura e não aconteça a mesma coisa que foi com a INB, para a gente ficar só com o lixo depois”, afirma o presidente do Sindicato Rural de Caldas, Messias Sebastião Guimarães. A agricultura é a maior atividade econômica do município, que tem mais de 900 produtores rurais, a maioria de agricultura familiar. Mais de 100 deles estão estabelecidos na região próxima à mina, com plantio de uva, rosas e hortaliças, além da produção de leite. De acordo com Guimarães, os agricultores estão na expectativa para saber como será feita a exploração e quais serão suas consequências. “Ninguém é contra o desenvolvimento. Se não contaminar a água, não prejudicar a agricultura, ninguém tem nada contra, desde que seja feito dentro das normas e deixe todo mundo trabalhar, continuar sua vida”, diz. Estudos apresentados até agora pela empresa e analisados por órgãos reguladores não apontaram risco relevante de radiação relacionado ao empreendimento. A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) dispensou, em caráter preliminar, exigências adicionais de controle radiológico para a instalação da mina (leia mais abaixo). Segundo a Meteoric, o projeto foi respaldado por inúmeros estudos que embasaram medidas para minimizar os impactos ambientais. A mineração será feita em superfície, com retirada de argila rasa, sem uso de explosivos e sem barragens de rejeitos. Após a extração, as cavas abertas serão preenchidas com a própria argila tratada. (Leia mais abaixo). Área rural de Caldas (MG) irá receber uma mina de exploração de terras raras Fabiana Assis/g1 O medo de ter a tranquilidade ameaçada Os moradores de Caldas e do distrito de Pocinhos do Rio Verde têm receio dos possíveis impactos cotidianos, como o aumento do tráfego de caminhões, que podem causar riscos à segurança, contaminação das culturas agrícolas com poeira e emissão de partículas. A funcionária pública aposentada Vanda Maria de Carvalho Reis teme que o sonho de vida que começou quando, há 25 anos, comprou propriedade rural em Caldas, esteja ameaçado. A área de 7 hectares, que era sem água, luz ou construções, aos poucos foi se transformando com o cuidado da família. Hoje, além da casa principal, há um espaço alugado para hóspedes, um restaurante e uma mata nativa que quase triplicou de tamanho nas últimas décadas. Vanda Maria de Carvalho Reis teme que área rural que tem há 25 anos e montou um restaurante sofra impactos da mineração de terras raras Fabiana Assis/g1 Há 16 anos, ela se mudou definitivamente para o lugar que chama de “paraíso”, esperando sossego, respirando ar puro e cercada pela natureza após a vida corrida em Campinas (SP). Mas, nos últimos dois anos, a possibilidade da instalação da mina a apenas dois quilômetros da propriedade passou a ser uma apreensão. Quando soube dos projetos de mineração, Vanda passou a participar de reuniões e audiências públicas para entender o que poderia acontecer. No início, acreditava que o projeto poderia ser barrado, mas com o avanço dos processos, a expectativa deu lugar ao desânimo e à sensação de impotência. Ela teme impactos relacionados a trânsito de caminhões, poeira e mudanças nas nascentes, além de perdas econômicas. “Ninguém vai querer vir daqui a uns tempos se isso ficar assim mesmo. Quem vai querer enfrentar poeira e trânsito? Tudo que a gente investiu, tudo que construímos, tudo que plantamos... perde valor, vira sucata.” A percepção de perda veio antes mesmo de qualquer mudança acontecer. “Paralisa a gente. Você pensa em fazer alguma coisa na propriedade, mas se pergunta se vale a pena. A sensação que eu tenho hoje é vontade de ir embora daqui.” Igreja do distrito de Pocinhos do Rio Verde, em Caldas (MG) Fabiana Assis/g1 Preocupação com a radiação De acordo com o presidente da Aliança em Prol da APA Pedra Branca, Daniel Tygel, entre as principais preocupações está a proximidade entre as futuras áreas de escavação e as estruturas ligadas ao antigo complexo nuclear. Segundo o ambientalista, algumas áreas previstas para exploração estariam a aproximadamente dois quilômetros do armazenamento dos rejeitos radioativos, e vibrações, escavações e alterações no terreno poderiam representar riscos às estruturas da antiga mina. "Durante décadas houve uma discussão sobre o descomissionamento daquela área. Agora se fala em movimentação intensa de maquinário pesado e grandes alterações do solo nas proximidades." Outro ponto levantado é a presença natural de elementos radioativos, como urânio e tório, associados às argilas que contêm terras raras. A preocupação é entender como eles poderiam se comportar durante o beneficiamento químico em um processo fechado e repetitivo de extração. "Nosso questionamento nunca foi impedir o aproveitamento dessa riqueza. O que defendemos é racionalidade no processo, planejamento e princípio da precaução", afirma. Ele ainda argumenta que a região possui características geológicas delicadas, com sistemas subterrâneos de circulação de água, além de preocupações relacionadas à drenagem ácida — fenômeno em que a água reage com minerais presentes em rejeitos e pode transportar substâncias químicas e metais para cursos d'água. INB coloca à venda mais de 15 mil toneladas de 'Torta 2' armazenadas em unidade desativada em MG Reprodução EPTV Regras para evitar "nova INB" A própria administração municipal admite que a proposta foi recebida inicialmente com desconfiança. Segundo o prefeito Airton Pereira Goulart (MDB), o histórico da mineração de urânio levantou preocupações. "Pensei: 'mais uma empresa que chega com uma promessa de transformar tudo'. Nós somos ressentidos com a INB e estamos aqui com esse passivo ambiental há 50 anos, e a questão da radiação era a que mais me preocupava. Não é o dinheiro que vem em primeiro lugar, mas o nosso bem-estar." Segundo o prefeito, foram adotadas medidas para evitar problemas futuros e impedir que o município fique desprotegido diante do empreendimento. Mesmo com os pareceres técnicos apontando que os níveis de radiação previstos estariam dentro dos parâmetros aceitos, a prefeitura contratou assessoria especializada em mineração e direito ambiental e investiu cerca de R$ 120 mil em suporte técnico. Também foi firmado um termo de compromisso com a empresa, contendo 46 condicionantes para a implantação da atividade. Entre elas: proibição de atividades dentro da APA, limitação de até três cavas abertas simultaneamente, recuperação progressiva das áreas exploradas, monitoramento de águas superficiais e subterrâneas, controle da qualidade do ar, monitoramento de ruídos e aquisição de bens e serviços de fornecedores locais. "Nós construímos junto com a empresa uma boa relação. A segurança que a gente queria era não ser mais uma INB nas nossas vidas", afirma o prefeito. O município de Caldas (MG), de 14,2 mil habitantes tem uma rotina tranquila no Sul de MG Fabiana Assis/g1 O município de 14,2 mil habitantes espera desenvolvimento. A prefeitura estima arrecadação de aproximadamente R$ 50 milhões em ISS durante a construção da planta industrial. Após o início das operações, a expectativa é de arrecadar cerca de R$ 1,5 milhão por mês em compensações da mineração. Esse valor pode representar aproximadamente 30% do orçamento atual do município. A prefeitura pretende utilizar parte desses recursos para reavivar o turismo na região, que tem várias cachoeiras e fontes de águas termais, na melhoria das estradas rurais, na proteção das nascentes e do meio ambiente, além da própria fiscalização da mineração. Tem planos também de criar um fundo em benefício das três comunidades indígenas do município. É esperado que, quando estiver em atividade, a mina empregue 520 pessoas. Para se ter uma ideia, a prefeitura, maior empregadora do município, tem atualmente 600 servidores. O empresário Alexandre Rocha já foi beneficiado com o aumento no movimento do restaurante que mantém há 20 anos. “Já aumentou bastante com funcionários que trabalham com a empresa. Quando tiver a todo vapor, posso não ter o fornecimento para o funcionalismo, mas poderei ter participação dos familiares deles”, afirma. Ele acredita que a cidade irá se adaptar à nova realidade que promete mudar a rotina do município. “É um mineral que vai ser explorado mundialmente, Caldas vai ter que ceder a essa pressão, não tem como evitar. Vai ter o lado bom e o positivo e o lado negativo. O lado bom é que vai gerar empregos, e o negativo é que também vai ter um pouquinho da destruição ambiental", afirma Rocha. Cidade de Caldas (MG) fica entre montanhas, no Sul de Minas. Município tem 14,2 mil habitantes Prefeitura de Caldas Como vai funcionar a mineração De acordo com o Projeto Caldeira, a extração de terras raras será feita a partir de argila iônica, em uma mina a céu aberto, de mineração rasa e sem uso de explosivos, o que diminui consideravelmente os impactos ambientais e o custo do processo. O sistema de escavação utilizado é o backfill (preenchimento), que consiste em um ciclo contínuo de extração e recuperação ambiental do local minerado. Enquanto uma nova cava é aberta para a extração do minério, cavas abertas anteriormente são preenchidas com argila de onde houve a extração de terras raras. A dinâmica evita a criação de grandes crateras permanentes e elimina a necessidade de barragens de rejeitos, pois o material escavado volta para o próprio terreno. Pelo acordo feito entre a Meteoric e a prefeitura, será permitida a abertura de até três cavas simultaneamente. Já o processo de extração dos elementos terras raras será feito por meio de lixiviação, uma espécie de lavagem da argila. INFOGRÁFICO - Como será a mineração de terras raras no Sul de Minas Arte/g1 O processo técnico de extração, separação dos minerais da argila e recuperação das áreas liberadas segue seis etapas principais: ⛰️ Remoção do solo: retira-se uma camada de 30 a 40 metros de profundidade usando apenas retroescavadeiras, sem necessidade de explosivos. 🪨 Lixiviação (separação terras raras): a argila extraída é lavada com uma solução diluída de sulfato de amônia. Essa solução "libera" os íons de terras raras que estão presos à argila. ⚗️ Separação e precipitação: o líquido contendo os íons de terras raras entra em um circuito fechado para ser transformado em carbonato de terras raras, que concentra os 17 elementos de terras raras. ♻️ Lavagem e reutilização da argila: após a retirada dos minerais, a argila passa por uma nova lavagem em quatro etapas, feita com água limpa, para remover impurezas, e é armazenada temporariamente. 🌳 Recuperação ambiental: a argila limpa é devolvida às cavas pelo sistema backfill (preenchimento), e o terreno é reconstituído com vegetação semelhante à original. Segundo o diretor ambiental da Meteoric, Éder Santo, estudos feitos pela empresa definiram uma metodologia para o fechamento das cavas. “É uma operação de aterro e a gente fez uma série de testes geotécnicos para garantir que esse material fique estável para não desmoronar. Desenvolvemos um conceito de deposição em camadas finas de 30 centímetros, compactando esse material antes de vir com outra camada. Assim, esse backfill não vai gerar nenhum tipo de impacto ambiental ou para a segurança das pessoas”, explicou. De acordo com a mineradora, o sistema é sustentável, consome pouca energia, não utiliza ácidos fortes no estágio de extração e permite que, após cerca de um ano, a área minerada já não apresente "cicatrizes" visíveis no relevo. A professora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Anna Luiza Marques Ayres da Silva, explica que o backfill é uma técnica conhecida e já bastante utilizada em diferentes contextos da mineração, mas sua segurança depende de bom projeto, execução adequada, controle de qualidade e monitoramento. “Sua aplicação deve ser analisada caso a caso, considerando o tipo de minério, o método de lavra, as condições locais e as exigências do licenciamento ambiental. No caso de terras raras, essa análise deve considerar também as características do processamento mineral e do material a ser utilizado no preenchimento, para verificar sua adequação física, química, geotécnica e ambiental.” Amostras de argila e solo com terras raras retiradas em Minas Anova Mineração RCO Mineração Empresa diz que estudos mostram segurança Segundo a Meteoric, estudos técnicos e pareceres de órgãos reguladores apontam que o Projeto Caldeira não apresenta riscos relacionados à radioatividade nem interferência nas atividades da unidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). De acordo com Santo, análises de concentrações de urânio e tório feitas com 22.450 amostras demonstraram que a radioatividade do material que será minerado está abaixo de 10 bequeréis por grama, que é o limite exigido pela norma de controles de radioproteção. O empreendimento não terá relação com a antiga mina de urânio. Para acalmar a pressão popular, a proposta original, que previa o transporte de minério por uma área pertencente à INB, foi alterada, resultando em um aumento de 30 km no trajeto. “Isso gerava muita discussão. Então decidimos retirar essa parte do projeto e utilizar estradas já existentes”, diz Santo. O gerente também descarta risco de drenagem ácida para os rios porque o processo, segundo ele, está relacionado à rocha e não ocorre na argila iônica. Equipamentos da mineradora Meteoric em posto de combustíveis do distrito de Pocinhos do Rio Verde, em Caldas (MG) Fabiana Assis/g1 Parecer de órgãos reguladores A INB garantiu que a mineração de terras raras não afetará a área da antiga mina e não causará vazamento radioativo, visto que não há previsão de uso do terreno. Informou também que o novo empreendimento não altera o planejamento atualmente previsto para o descomissionamento da UDC, que recebeu a licença ambiental do Ibama para a sua realização em janeiro de 2025. Com base nos estudos e relatórios apresentados pela empresa, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) considerou a instalação da mina isenta de requisitos adicionais de segurança e proteção radiológica, em 2024. Em 2025, a responsabilidade por este tipo de fiscalização foi transferida para a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) que declarou que não vislumbra a possibilidade de interferência do projeto Caldeira nas propriedades da UDC/INB e o isentou de controle regulatório por parte do órgão. A ANSN esclareceu que a avaliação do empreendimento foi conduzida com base no marco normativo brasileiro de proteção radiológica, bem como nas recomendações internacionais. Foram analisados os dados do Relatório de Informações Preliminares (RIP), fornecido pela empresa, relativos às concentrações de atividade total dos radionuclídeos do urânio e do tório nas matérias-primas, nos produtos e nos resíduos gerados pelo empreendimento. A partir dessa análise, concluiu-se que o projeto enquadra-se nos critérios de isenção. Todos os laudos, porém, ressaltam que a isenção tem caráter preliminar e poderá ser revista no início da operação de instalação, que deverá ser acompanhada pelo órgão que irá fazer coletas de amostras para análise. A Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), responsável pelo licenciamento ambiental da mina, disse que a proximidade do Projeto Caldeira com a UDC/INB foi considerada a partir das informações apresentadas nas manifestações ANSN, da CNEN, do Ibama e da INB e que a classificação radiológica de instalações e práticas, a definição de níveis de isenção e a eventual submissão a controle regulatório são matérias de competência da União. "Essas manifestações não indicaram interferência do projeto sobre a UDC/INB, sobre o programa de monitoramento radiológico ambiental executado naquela unidade ou sobre os trabalhos de descomissionamento em andamento", afirmou a Feam em nota. Para além da interação com a INB, a Meteoric afirma que foram investidos mais de R$ 10 milhões em estudos para avaliar o impacto do projeto no meio ambiente, que incluíram monitoramento das águas superficial e subterrânea, avaliação de ruído, levantamentos de fauna e flora, análises de qualidade do ar, estudos de tráfego e avaliação de impactos sobre as águas termais de Pocinhos do Rio Verde, distrito de Caldas. Os estudos resultaram em mais de 6 mil páginas de documentos que foram entregues aos órgãos reguladores. O Ministério Público Federal acompanha o desenrolar do projeto. Em 21 de maio, representantes do MPF estiveram em Caldas. De acordo com o órgão, a visita técnica realizada às instalações da Meteoric e da INB teve caráter apenas informativo. Na visita à Meteoric, o objetivo foi conhecer o local onde será instalada a planta industrial do empreendimento e onde se situará a cava principal de extração, além de entender os processos que a empresa pretende empregar para a obtenção de minerais de terras raras. Já na visita às instalações da INB, o objetivo foi tratar do processo de descomissionamento da unidade. Projeto Caldeira da Meteoric recebe autorização do Conselho Gestor da Área de Preservação Ambiental Santuário Ecológico da Pedra Branca (Congeapa) de Caldas Meteoric/Divulgação Mineração precisa ser fiscalizada, dizem especialistas Na opinião do geólogo Roberto Kozuki, o principal ponto de atenção do Projeto Caldeira não é a proximidade com a INB, mas a forma como a mineração será executada e fiscalizada. O profissional, que por muitos anos foi responsável pela avaliação do impacto da mineração de urânio no lençol freático em Caldas, afirma que a presença de minerais radioativos na região não significa automaticamente risco elevado nas áreas previstas para exploração das argilas iônicas. A real preocupação do geólogo é com o processo de beneficiamento mineral, que, segundo ele, utiliza substâncias químicas de potencial poluidor. Ele ressalta, no entanto, que o risco depende diretamente da condução operacional. “Beneficiamento de minério é de um grau muito alto de risco ambiental, mas, bem conduzido, não há problema. Agora, se não fizer direito, vai contaminar lençóis freáticos, rios. Vai haver prejuízo ambiental.” A professora do Instituto de Física da USP Elisabeth Yoshimura compartilha dessa opinião e alerta que a preocupação não deve se ater somente à INB, mas ao cuidado de não haver vazamento radioativo no processo que será instalado para a retirada de terras raras. "Independentemente da INB, o processamento de terras raras vai gerar um rejeito que é radioativo porque o tório está ali misturado. Onde tem terras raras, tem átomos radioativos. Devolver a terra que sobrou para a cava parece uma boa solução, porque você não cria depósitos e não vai despejar nos rios", diz. Na visão de Kozuki, a preocupação central deveria ser garantir que existam mecanismos claros de cobrança e que envolvam fiscalização, compensações ambientais e sociais e desenvolvimento regional. “Não se barra um empreendimento desse porte. É um material estratégico. O momento é agora, tem que ser explorado, mas tem que ter reversão para a comunidade e não pode deixar impacto ambiental para a região.” Além de todo o debate, a mineração de terras raras já começou a transformar Caldas, antes mesmo do início das escavações, e deixa os moradores na expectativa do que será o futuro. Quarta geração da família que mantém a mais tradicional padaria da cidade há quase 80 anos, Juliano César da Fonseca Barbosa acredita que a mineração de terras raras trará vantagens para a população. “A meu ver, tudo que traz geração de emprego, progresso e renda para a cidade, eu sou super favor. Desde que não agrida o meio ambiente e não seja como a INB que não trouxe nenhum benefício para a cidade.” O geólogo Roberto Kozuki diz que projetos minerais de terras raras têm bons projetos, mas precisam ser fiscalizados Fabiana Assis/g1 Terras raras: tipos e usos Arte/g1 Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2026/05/30/entre-o-passado-nuclear-e-as-terras-raras-cidade-do-sul-de-minas-vive-novo-ciclo-mineral-40-anos-depois.ghtml


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